Barely Legal
27 February 2008 – 23:57Tenho um apetite por conhecimento e a Internet é um dos melhores lugares para saciar essa vontade. Tenho prazer em descobrir coisas novas e, com um pouco de paciência para descartar o lixo que é despejado todo dia na Internet, acabo por achar coisas interessantes.
Há algum tempo venho utilizando programas P2P com o intuito principal de conhecer o trabalho de alguns artistas que, até então, só havia tido a oportunidade de ler sobre seus trabalhos. Cineastas como Takashi Miike, Shinya Tsukamoto, Chan-Wook Park, The Pang Brothers, dentre tantos outros e bandas como Within Temptation, Rammstein, Lacuna Coil, e outras. Isso muito antes de Chan-Wook Park ganhar a Palma de Ouro em Cannes por Oldboy e antes dos filmes de alguns desses diretores serem lançados em DVD no Brasil, e antes de existirem sites que vendessem música para serem baixadas pela Internet direto para o seu PC. As pessoas que são contra essa forma de disseminação da informação utilizam o argumento de que ela serve apenas para que as pessoas passem a baixar filmes, programas e músicas sem ter que pagar por tais mídias, infringindo leis de direito autoral e aumentando a pirataria.
Grande parte dos CDs e DVDs apreendidos em operações policiais é produzida fora do país, comumente originários da China. É notório que há pessoas que preferem comprar esse tipo de mídia. Mas por quê? Um CD original é lançado no mercado brasileiro com o preço inicial por volta de R$30,00, se simples, e R$60,00, se duplo. Um DVD original sai por volta de R$29,90 em seu lançamento, se simples, e R$39,90, se duplo. Indo a um mercado popular que oferece “cópias alternativas” desses mesmos produtos supracitados, achamos preços que variam de R$5,00 a R$10,00 reais, tanto para CDs como para DVDs. Obviamente, a qualidade de impressão dos encartes é sofrível, porém, ao contrário do que querem nos fazer acreditar, há lugares em que se pode conseguir CDs e DVDs com qualidades muito boas, pelo menos em se tratando de cópias dos originais. As pessoas não caíram no papo de que mídias piratas podem estragar o seu aparelho de som ou DVD player, então mudaram a abordagem: agora, se você compra produtos piratas, está diretamente financiando o crime organizado.
Segundo reportagens veiculadas à época do lançamento do filme 2 Filhos de Francisco, o Presidente Lula teria visto um DVD pirata no avião que serve a Presidência da República em viagens oficiais. Detalhe: teria dormido durante a exibição do filme. Outro episódio marcante: na pré-estréia do filme Tropa de Elite no Festival de Cinema do Rio, vários dos que atenderam àquela sessão foram perguntados pelo diretor do filme na introdução da sessão quantos, a título de curiosidade, haviam visto o filme em sua versão pirata que vinha circulando há algum tempo nos camelôs da cidade. Meia dúzia de gatos pingados foi corajosa o suficiente para admitir tal conduta. Por conta de entrevistas após a sessão, ficou claro que várias das pessoas que foram à pré-estréia, dentre elas vários artistas, haviam visto a versão pirata do filme. Jô Soares recebeu uma cópia pirata do filme Tropa de Elite apreendida pela polícia e entregue ao diretor do filme, José Padilha, que, por sua vez, ofereceu uma cópia ao rotundo comediante, que a assistiu antes de entrevistar Padilha. Nada disso é alardeado como crime ou associação a ele, apenas reflete vícios de uma sociedade desigual.
Nenhum cidadão de bem quer associar-se a atividades ilegais, porém há sistemas que não oferecem alternativas. Quando um cidadão que trabalha e recebe por esse trabalho um salário de R$380,00, sobra pouco para o lazer após os gastos necessários para manter-se e manter uma família. Procurando por um CD de seu artista preferido numa loja depara-se com o preço indigesto imposto pelas lojas para garantir o lucro após a aquisição desse produto das distribuidoras. Outro argumento para os CDs piratas serem tão mais baratos que os originais está no fato de que as pessoas que produzem tal material não pagaram impostos para a produção nem a distribuição do mesmo, além da obra original envolver muito mais gente no processo produtivo, assim onerando mais ainda a cadeia produtiva, refletindo, assim, no preço final. Verdade. Porém, não justifica o preço que é cobrado hoje em dia. Procurando por uma mídia de CD para gravar os seus backups, pode-se encontrá-las por menos de R$0,90 a unidade. Sendo que os CDs que saem para venda são produzidos aos milhares, acredito que o custo seja bem menor que esse. Acrescentando impostos, gastos com estúdios e artistas, o preço poderia chegar a R$8,00. Gastos com publicidade e lucro acrescidos, poderia chegar a R$15,00. Isso seria um preço bem razoável para um artista novo no mercado em seu CD de estréia. Outro dia consegui comprar um CD dos Beatles por R$14,99. Acho um preço justo e adequado ao mercado brasileiro. O mesmo raciocínio vale para filmes e shows em DVD.
Nunca comprei DVDs nem CDs que não fossem originais. Porém, sempre achei um pouco estranho ver CDs de bandas populares como Calypso serem vendidos por R$12,00, enquanto um CD da Danni Carlos chega a ser vendido por R$29,90. Assim como DVDs de filmes serem lançados ao custo de R$29,90 e, poucos meses depois, passarem a custar R$19,90. Ou a margem de lucro pretendida está exagerada, ou estão perdendo dinheiro, o que não acredito.
A guerra que estão promovendo contra usuários das redes P2P, além de ingrata, é injusta. Como disse anteriormente, foi por meio dela que conheci alguns diretores que, se fora por outro método, tardaria ou seria simplesmente impossível, como no caso de Alejandro Jodorowsky. Acredito que ela pode ser usada como aliada na difusão do trabalho de artistas novos e porque não, dos já estabelecidos no mercado. Há muitos bons artistas que não estão inseridos na teia das grandes corporações, mas estão ansiosos para mostrar seus trabalhos ao grande público. Sei que essas redes de compartilhamento de arquivos fizeram com que eu tivesse contato com novas formas de expressão no âmbito sonoro e audiovisual, fomentando o interesse em adquirir CDs e DVDs de artistas cuja obra marcou-me de alguma forma. Talvez eu seja uma exceção, mas creio que há outros que, como eu, passaram até a comprar mais DVDs e CDs depois do contato com essa forma de compartilhar a informação.